Bitcoin recupera o USDT, doze anos depois
A Tether já usava o Bitcoin em 2014. Na época, o USDT circulava pela Omni Layer, um protocolo construído sobre a rede. A experiência, porém, não resistiu à expansão do Ethereum e da Tron, que eram muito mais adequados naquele momento para a circulação em larga escala de stablecoins.
Na África, essa infraestrutura já desperta o interesse de vários projetos: a BrefCrypto informou recentemente que três iniciativas africanas financiadas pela Human Rights Foundation trabalham, entre outros temas, com Bitcoin, Lightning e mobile money.
A empresa finalmente deixou de emitir novos USDT na Omni em 2023. Desde então, o cenário do Bitcoin mudou. A Lightning se desenvolveu, as ferramentas voltadas a pagamentos se multiplicaram e novos protocolos passaram a permitir a emissão de outros ativos sem transformar diretamente a blockchain em uma concorrente do Ethereum.
A Tether anunciou oficialmente, em agosto de 2025, sua intenção de lançar o USDT com a RGB. Agora, o projeto assume uma forma comercial com a Utexo, que desenvolve ferramentas para que wallets, exchanges e empresas utilizem esse dólar digital no ecossistema Bitcoin.
O retorno, portanto, está longe de ser apenas uma referência histórica.
RGB evita transformar o Bitcoin em Ethereum
A RGB funciona de maneira diferente dos tokens tradicionais. No Ethereum ou na Tron, grande parte das informações relacionadas a um token e às suas transações fica diretamente na blockchain. A RGB prefere o que os desenvolvedores chamam de “validação no lado do cliente”.
Em outras palavras, o Bitcoin não armazena toda a contabilidade de cada USDT negociado. A rede atua principalmente como uma âncora criptográfica e impede que uma mesma unidade seja gasta duas vezes. As informações detalhadas sobre os ativos podem permanecer fora da cadeia e ser verificadas pelos usuários envolvidos.
Essa arquitetura reduz a quantidade de dados adicionados ao Bitcoin e melhora a privacidade. Ela também permite conectar ativos RGB à Lightning Network para realizar transações muito mais rápidas.
A Utexo pretende viabilizar transferências de USDT com custos previsíveis, liquidação quase instantânea e integração direta a wallets ou plataformas financeiras. A empresa já oferece ferramentas voltadas a exchanges, custodiante e provedores de pagamentos.
O desafio vai além da tecnologia. As stablecoins são cada vez mais usadas para realizar transferências internacionais e preservar valor atrelado ao dólar. Na Nigéria, quase 60% das entradas de stablecoins na África Subsaariana estavam concentradas no país no período analisado pelo FMI.
Conectar esse uso ao Bitcoin, portanto, abre um mercado muito maior do que o simples trading de BTC e USDT.
Lightning pode finalmente transportar dólares
O Bitcoin convive há muito tempo com um paradoxo. Sua rede tem segurança e liquidez consideráveis, enquanto os pagamentos em dólares digitais são realizados principalmente em outros ambientes.
A chegada do USDT à RGB e à Lightning tenta unir esses dois mundos. Em tese, uma wallet poderia armazenar bitcoin e USDT, trocar um pelo outro e enviar dólares digitais rapidamente sem sair do ecossistema Bitcoin. Para transferências internacionais, micropagamentos e determinadas liquidações comerciais, a combinação se torna especialmente interessante.
Ainda assim, é preciso cautela em relação ao cronograma. A Utexo já apresentou sua infraestrutura, integrou a RGB Lightning ao Wallet Development Kit da Tether e anunciou vários parceiros. Isso ainda não significa que qualquer detentor de USDT terá automaticamente acesso a saques de Bitcoin via Lightning em sua exchange preferida. A adoção dependerá das wallets, das plataformas, da liquidez e das integrações efetivamente implementadas.
Paolo Ardoino, porém, voltou a colocar o projeto em evidência no fim de setembro, ao afirmar que o USDT estava retornando ao Bitcoin. Também houve conversas entre a Utexo e representantes do Morgan Stanley sobre essa infraestrutura, sem que uma parceria comercial entre o banco e a Tether tenha sido anunciada oficialmente.
O movimento ocorre no momento em que as stablecoins deixam gradualmente de ser apenas ferramentas de trading. Na África do Sul, cerca de 27 bilhões de rands em USDT já circularam em três grandes plataformas locais.
O Bitcoin pode agora recuperar parte desses fluxos.
A Tether deixou a Omni porque a infraestrutura já não acompanhava os usos do mercado. Doze anos depois de seu início, o retorno por meio da RGB e da Lightning conta quase a história inversa: não é mais o USDT que espera pelo Bitcoin. É o ecossistema Bitcoin que finalmente começa a dispor dos trilhos necessários para receber uma stablecoin desse porte.