Mercado global de títulos recua
A tensão vai muito além dos Estados Unidos. O Bitcoin já havia resistido a uma primeira onda de vendas em massa dos títulos globais no início de setembro. Um mês depois, os rendimentos estão ainda mais altos.
O Treasury americano de 10 anos atingiu 5,34%, o maior nível em 24 anos. O título de 30 anos se aproxima de 5,7%. Na França, o rendimento de 10 anos está perto de 5%, enquanto o diferencial em relação à Alemanha alcança níveis que não eram observados havia 14 anos. No Reino Unido, o título de 30 anos supera 6%, algo que não acontecia desde 1998.
No Japão, a pressão já dura cinco trimestres.
A dinâmica é simples: quando os investidores vendem um título, seu preço cai e o rendimento sobe. Os governos, então, precisam aceitar taxas mais elevadas para atrair novos compradores.
As causas se somam: petróleo caro, inflação persistente, déficits fiscais elevados, necessidades expressivas de refinanciamento e uma nova onda de endividamento ligada à infraestrutura de inteligência artificial.
A OCDE estima que governos e empresas deverão levantar US$ 29 trilhões nos mercados de títulos em 2026.
É muita oferta de dívida, diante de compradores que se tornaram mais exigentes.
Os US$ 140 trilhões geram confusão
Por isso, é preciso corrigir o número viral segundo o qual “US$ 140 trilhões em dívida estão quebrando ao mesmo tempo”.
A OCDE estima em aproximadamente US$ 109 trilhões o estoque combinado de títulos soberanos e corporativos em todo o mundo. A dívida em títulos soberanos dos países da OCDE, sozinha, chega a US$ 61 trilhões, ante US$ 55 trilhões em 2024.
A dívida global total é muito maior.
Segundo o Institute of International Finance, ela alcançou aproximadamente US$ 365 trilhões no primeiro semestre de 2026, o equivalente a 311% do PIB mundial. Essa medida, porém, inclui muito mais do que apenas os títulos atualmente negociados nos mercados.
Portanto, seria enganoso afirmar que US$ 140 trilhões estão atualmente “desabando”.
O problema continua enorme sem que seja necessário exagerá-lo.
Os governos precisam refinanciar dívidas emitidas em um período em que as taxas eram, muitas vezes, bem mais baixas. Quanto mais os rendimentos sobem, maior fica a conta no futuro. A BlackRock já havia identificado a dívida americana como um dos grandes temas capazes de recolocar o Bitcoin no centro do debate monetário.
Nos Estados Unidos, essa pressão é especialmente evidente: a dívida federal já supera US$ 40 trilhões, enquanto seu custo de financiamento volta a subir de forma acentuada.
Bitcoin se mantém em torno de US$ 84 mil
E o Bitcoin?
Por enquanto, ele se recusa a acompanhar integralmente a queda dos mercados de títulos.
O BTC é negociado em torno de US$ 83.800, praticamente estável nas últimas 24 horas, depois de oscilar entre aproximadamente US$ 83.200 e US$ 85.650. Esse comportamento é notável, considerando a alta dos rendimentos americanos.
Em condições normais, um Treasury acima de 5% não é uma boa notícia para o Bitcoin. Um investidor pode obter um rendimento relativamente alto com um título do governo sem se expor à volatilidade do BTC. É justamente por isso que os dados de inflação e os rendimentos provocam tanta movimentação no Bitcoin.
Existe, porém, uma segunda interpretação.
Se os títulos estão sendo vendidos porque os investidores começam a se preocupar com a dívida, os déficits e a capacidade dos governos de estabilizar suas finanças, a mesma crise que empurra os rendimentos para cima também fortalece gradualmente a tese de um ativo monetário com oferta fixa.
No curto prazo, juros de 5,3% podem pesar bastante sobre o BTC.
No longo prazo, a razão pela qual essas taxas estão subindo é quase tão importante quanto o nível alcançado.
O mercado global de títulos não está desaparecendo. Ele está exigindo um preço muito mais alto para financiar os governos. Para o Bitcoin, isso cria uma configuração paradoxal: a alta dos rendimentos representa uma ameaça imediata, enquanto a crise de confiança fiscal que a alimenta se parece exatamente com o cenário para o qual o Bitcoin foi criado.